Pode-se pensar que é mais difícil quando a tentação reside tão próxima, no quarto ao lado. Às vezes, no meio da noite, gosto de imaginar que a qualquer momento levantarei da cama, que estou apenas aguardando uma ordem interna repentina que fará meu corpo responder obediente e satisfazer seus desejos. E, no entanto, não tenho como disfarçar aquela certeza profunda de que não farei nada, jamais. Desse modo, independente da distância que separa nossos quartos, é extremamente fácil - natural? - não agir. Trata-se apenas de um jogo, fingir para mim mesma que posso ter aquilo que quero, que posso erguer-me e encontrá-lo no escuro da casa, sabendo que não o farei - apesar de saber quantos passos são necessários, de decorar os trajetos, de percorrer cada vão. Imagine uma criança que perde o sono como se apenas aguardasse o momento mais adequado para sair voando, de capa nas costas, muito embora não possa esconder aquela verdade terrível e brutal que lhe castra a infância: não voa. Que desejar o próprio irmão é como negar a gravidade, é como nadar através do ar - muitos devem querer voar, mas não se vê pessoas batendo os braços como se fossem asas pelas ruas - se muito, apenas por detrás de portas trancadas.
Meu desejo é menos complicado do que os outros desejos, evidente, porque jamais estou na eminência de concretizá-lo. Não há situação ou tabu que pelo desejo não sejamos capazes de transcender, não há regra que não seja quebrada em nome de um satisfazer que se imagina último e definitivo, e portanto vive-se aquela sensação de que o menor deslize levará a uma inevitável transgressão que resolverá a questão definitivamente. Mas não para mim, não em meu caso. Não há passo que possa ser dado - não se trata de um campo minado, mas sim de um campo que sequer existe, que não está lá. Jamais na eminência: decoro os traços de sua boca, tão parecida com a minha que encaixariam como se talhadas juntas, numa só peça, mas como camuflar a certeza de que nunca farei nada? Incapaz de mentir para dentro, digo que lhe arrancarei pedaços com os dentes, mas meu corpo permanece imóvel, cadáver teimoso. Fico sempre seca como um enterro, que o corpo envergonha-se de lubrificar-se. Na mente, escorro-me pelas pernas, mas a verdade é agreste.
Deixar de desejá-lo seria assumir que é possível percorrer o caminho contrário. Veja, posso estar descontente de ter saído de um útero e jorrado viscosa para fora, mas não posso corrigir esse engano com a viagem contrária, rastejando para o meio das pernas e refugiando-me novamente num útero - embora os homens, como todas nós mulheres bem sabemos, tanto insistam em tentar. Existem muitas outras soluções ao parto - do insistir ao desistir - mas jamais um reverso. Muitas abordagens, portanto, mas nunca o deixar de desejá-lo - parida que estou desse púbis carnal do desejo, o estrago está feito.
Parece que nenhum gozo que tenho é grande o bastante para compensar todos aqueles que não tive e não posso ter. Às vezes é como se eu visse o mundo com o ventre, como se ele fosse olhos, mãos e língua. São tantos homens e tantos gozos mas para cada um tenho a sensação de estar perdendo tantos outros. Incapaz de desfazer a sensação de querer abraçar o mundo - com as pernas. Minha salvação sexual está única e somente nele, no qual encarna-se todos os gozos do mundo, no qual estão todos os falos e todas as fodas, todos os lugares e possibilidades, como se todas as camas convergissem em sua carne - aliás, carne da minha carne, sangue do meu sangue.
É tanto desejo mas minha carne cala, nenhum sinal do que acontece apenas por dentro. Deito-me constantemente e conto então aos nossos pais, sempre como se fosse a primeira vez, digo que fodemos no chuveiro, enquanto eles iam ao mercado. Explico que sempre nos quisemos, que o ciúmes de irmão jamais camuflara os sentimentos óbvios que tinha por mim, e que cedo ou tarde derrubaríamos o véu que nos afastava um do outro. Imagino suas reações, tacando panelas, cadeiras, vomitando - um em cima do outro. Sempre reações exageradas, cômicas, mamãe engasgando com um pedaço de pão, do que riríamos depois quando fugíssemos de casa, na estrada. Ele me tomaria ainda no caminho, com uma das minhas pernas saindo pela janela do carro. Ainda nada, meu corpo não responde. Me tomaria por entre berros, por entre urros, nossos corpos simétricos abraçando-se com invejável encaixe. Ainda nada, seca, inabalada. Me tomaria todas as noites, mamãe e papai dormindo logo ao lado. Me tomaria agora, nesse instante, me pegando de surpresa aqui, com a mão entre as pernas, por dentro do pijama. Nada. Nunca nada. Minha carne tão pura, sua carne tão nua. Carne da minha carne, sangue do meu sangue.
Quem come minha carne permanece em mim e eu nele. Tomai, isto é meu corpo. Isto é meu sangue. Come! Bebe! Faz de mim uma eucaristia pecaminosa e canibal! Come a carne que é a tua, bebe o sangue que é o teu. Que assim teremos a comunhão, teremos a vida eterna, que eu só posso existir nos teus braços, que só você me traz plenitude, meu deus. Fora você, nesse mundo, me retiram tudo: me privam os gozos todos, me proíbem de querer, me podam a libido, me secam por entre as pernas e me castigam com o vazio. É culpa deles que eu não sinta nada, é culpa deles que eu não reaja a você e sim a todos os outros, que no entanto não me completam. Gozo para todos mas desejo apenas aquilo que não tenho e, ironicamente, vejo no espelho todos os dias. Ali, tão perto quanto o reflexo num banheiro cercado pelo vapor, mas ainda assim não é tão difícil de lidar. Eu sei que não acontecerá nada, que eu não farei nada, que meu corpo não levantará da cama, e ali no meio das minhas pernas a comprovação: morta, um cadáver crucificado, escondido no Santo Sudário da minha calcinha, num abandono derradeiro de toda fé - não há milagres.