Friday, April 22, 2011

Sonho com falta de ar

Preocupações e desgostos podendo ser evitados
se você agir com prudência.
Evite viajar.
Saudade de quando a falta de ar
queria dizer outra coisa.

Friday, March 05, 2010

Culpa

É dar um soco num espelho,
mirando você mesmo e atingindo outro.
E aquele pedaço que finca na sua mão,
que não sai, que não larga,
te faz lembrar da dor
te faz lembrar que você, só você
foi quem atacou sem motivo.
E lembra que não foi você que foi estilhaçado.

Wednesday, September 30, 2009

Impossível

Olhos com sede
que acompanham antes ela,
depois o que ela vê
que se escondem com vergonha
diante da revelação

Separados por dois passos,
por duas letras na escala social
por quantidade de melanina
pelo nível de álcool no perfume
pelo gosto musical
pelo gosto literário
por tudo isso que é essencial.
Unidos pelo metro quadrado
do espaço público.

Monday, June 01, 2009

A um passante

Pelo menos dez metros separavam os dois quando bati o olho neles. Vinham em direções opostas, um encontro inevitável em uma rua estreita. Do meu ângulo ele estava de costas, dela eu via o rosto e acompanhava com o meu, o seu olhar. Com passos dobrados eles se aproximaram rapidamente. Os olhos dela procuraram os dele com afinco, depois com ansiedade, despencando para o desespero. Um olhar não correspondido a um passante sem nome. Diante do obtuso da passagem, ela, arrastada pela mãe, tentou o que todos sabiam ser inútil: virou a cabeça. Não viu resposta e nem o degrau a sua frente. O primeiro beijo foi na terra úmida, a lição para sempre. A garota conhecera o amor. Ela tinha cinco anos, ele seis.

Saturday, May 16, 2009

Budismo reverso

Uma criança pequena,
ao notar que
a sua presença
não se encontra mais
em seu pequeno
campo de visão,
pensará,
então,

que você
desapareceu,
sumiu
ou morreu.

Comigo
acontece justamente
o contrário:

quando você
dobra a esquina
e sai do meu campo
de visão,
quem parece morto
sou eu.

Thursday, May 14, 2009

Iô-iô

É que se Jesus quisesse
ter salvo o mundo,
teria
o teu sorriso -
para não falhar assim
tão miseravelmente.

E se o diabo ousasse
descer ao fundo,
seria
nos teus ombros -
abandonando por ti
os domínios conquistados.

É que o teu mundo
contém os extremos
das brincadeiras de
uma criança:
o presente na véspera,
o medo
do escuro.

E se um homem
infante
quer sentir-se
vivo,
é preciso

- ainda que
na fina corda
de um brinquedo -

cair
e retornar
dessa imensidão
dos teus olhos.

Sunday, May 10, 2009

Natureza

Acordo na selva
dos teus cabelos
por onde entrevejo
o nascer do sol
dos teus olhos.
Percorro montes e
colinas
para matar a sede
na nascente
da tua boca.
Por todos os lados
é o cheiro da selva
das tuas mechas
que me guia
pela trilha.
Sem ele
rumaria até
a fonte
e num ato insano
desidratado de
sonho
e vida
com as mãos em concha
beberia
o seu
xampu.

Thursday, March 26, 2009

Revolução

Eles virão durante a noite,
enquanto eu durmo,
e esparramarão meus miolos pelo chão.

Esquecerão que tenho esposa,
provavelmente filhos,
que critico o mundo que eles destróem
- mas também o novo
que eles colocam em seu lugar.

Não haverá espaço
para mim:
serei uma mancha no tapete
da revolução -
aos seus filhos vindouros, dirão
que as marcas
ali, perto da cama,
são de café que
alguém,
num descuido,
sem querer derramou.

Com a arma em punho,
a mão sobre um livro
- solução embrulhada em pacote -
me acusarão contraditório
- eles, vejam só,
oprimindo
para que não haja
opressão.

Pelas janelas ouvirei
a voz do povo:
juri e juiz.
A maioria terá vencido, enfim,
mas e à minoria,
preocupo-me,
o que darão
de beber?
Não saberei,
não haverá tempo
para que eu morra
de sede.

Que naquela madrugada,
as soluções estarão dadas
e eu não poderei mais ficar -
pois sou uma eterna pergunta,
interrogação,
e eles são a resposta,
frase afirmativa:

meu mundo termina
quando eles colocarem
o ponto final.

Friday, February 27, 2009

Hóstia

Pode-se pensar que é mais difícil quando a tentação reside tão próxima, no quarto ao lado. Às vezes, no meio da noite, gosto de imaginar que a qualquer momento levantarei da cama, que estou apenas aguardando uma ordem interna repentina que fará meu corpo responder obediente e satisfazer seus desejos. E, no entanto, não tenho como disfarçar aquela certeza profunda de que não farei nada, jamais. Desse modo, independente da distância que separa nossos quartos, é extremamente fácil - natural? - não agir. Trata-se apenas de um jogo, fingir para mim mesma que posso ter aquilo que quero, que posso erguer-me e encontrá-lo no escuro da casa, sabendo que não o farei - apesar de saber quantos passos são necessários, de decorar os trajetos, de percorrer cada vão. Imagine uma criança que perde o sono como se apenas aguardasse o momento mais adequado para sair voando, de capa nas costas, muito embora não possa esconder aquela verdade terrível e brutal que lhe castra a infância: não voa. Que desejar o próprio irmão é como negar a gravidade, é como nadar através do ar - muitos devem querer voar, mas não se vê pessoas batendo os braços como se fossem asas pelas ruas - se muito, apenas por detrás de portas trancadas.

Meu desejo é menos complicado do que os outros desejos, evidente, porque jamais estou na eminência de concretizá-lo. Não há situação ou tabu que pelo desejo não sejamos capazes de transcender, não há regra que não seja quebrada em nome de um satisfazer que se imagina último e definitivo, e portanto vive-se aquela sensação de que o menor deslize levará a uma inevitável transgressão que resolverá a questão definitivamente. Mas não para mim, não em meu caso. Não há passo que possa ser dado - não se trata de um campo minado, mas sim de um campo que sequer existe, que não está lá. Jamais na eminência: decoro os traços de sua boca, tão parecida com a minha que encaixariam como se talhadas juntas, numa só peça, mas como camuflar a certeza de que nunca farei nada? Incapaz de mentir para dentro, digo que lhe arrancarei pedaços com os dentes, mas meu corpo permanece imóvel, cadáver teimoso. Fico sempre seca como um enterro, que o corpo envergonha-se de lubrificar-se. Na mente, escorro-me pelas pernas, mas a verdade é agreste.

Deixar de desejá-lo seria assumir que é possível percorrer o caminho contrário. Veja, posso estar descontente de ter saído de um útero e jorrado viscosa para fora, mas não posso corrigir esse engano com a viagem contrária, rastejando para o meio das pernas e refugiando-me novamente num útero - embora os homens, como todas nós mulheres bem sabemos, tanto insistam em tentar. Existem muitas outras soluções ao parto - do insistir ao desistir - mas jamais um reverso. Muitas abordagens, portanto, mas nunca o deixar de desejá-lo - parida que estou desse púbis carnal do desejo, o estrago está feito.

Parece que nenhum gozo que tenho é grande o bastante para compensar todos aqueles que não tive e não posso ter. Às vezes é como se eu visse o mundo com o ventre, como se ele fosse olhos, mãos e língua. São tantos homens e tantos gozos mas para cada um tenho a sensação de estar perdendo tantos outros. Incapaz de desfazer a sensação de querer abraçar o mundo - com as pernas. Minha salvação sexual está única e somente nele, no qual encarna-se todos os gozos do mundo, no qual estão todos os falos e todas as fodas, todos os lugares e possibilidades, como se todas as camas convergissem em sua carne - aliás, carne da minha carne, sangue do meu sangue.

É tanto desejo mas minha carne cala, nenhum sinal do que acontece apenas por dentro. Deito-me constantemente e conto então aos nossos pais, sempre como se fosse a primeira vez, digo que fodemos no chuveiro, enquanto eles iam ao mercado. Explico que sempre nos quisemos, que o ciúmes de irmão jamais camuflara os sentimentos óbvios que tinha por mim, e que cedo ou tarde derrubaríamos o véu que nos afastava um do outro. Imagino suas reações, tacando panelas, cadeiras, vomitando - um em cima do outro. Sempre reações exageradas, cômicas, mamãe engasgando com um pedaço de pão, do que riríamos depois quando fugíssemos de casa, na estrada. Ele me tomaria ainda no caminho, com uma das minhas pernas saindo pela janela do carro. Ainda nada, meu corpo não responde. Me tomaria por entre berros, por entre urros, nossos corpos simétricos abraçando-se com invejável encaixe. Ainda nada, seca, inabalada. Me tomaria todas as noites, mamãe e papai dormindo logo ao lado. Me tomaria agora, nesse instante, me pegando de surpresa aqui, com a mão entre as pernas, por dentro do pijama. Nada. Nunca nada. Minha carne tão pura, sua carne tão nua. Carne da minha carne, sangue do meu sangue.

Quem come minha carne permanece em mim e eu nele.
Tomai, isto é meu corpo.
Isto é meu sangue.

Come! Bebe! Faz de mim uma eucaristia pecaminosa e canibal! Come a carne que é a tua, bebe o sangue que é o teu. Que assim teremos a comunhão, teremos a vida eterna, que eu só posso existir nos teus braços, que só você me traz plenitude, meu deus. Fora você, nesse mundo, me retiram tudo: me privam os gozos todos, me proíbem de querer, me podam a libido, me secam por entre as pernas e me castigam com o vazio. É culpa deles que eu não sinta nada, é culpa deles que eu não reaja a você e sim a todos os outros, que no entanto não me completam. Gozo para todos mas desejo apenas aquilo que não tenho e, ironicamente, vejo no espelho todos os dias. Ali, tão perto quanto o reflexo num banheiro cercado pelo vapor, mas ainda assim não é tão difícil de lidar. Eu sei que não acontecerá nada, que eu não farei nada, que meu corpo não levantará da cama, e ali no meio das minhas pernas a comprovação: morta, um cadáver crucificado, escondido no Santo Sudário da minha calcinha, num abandono derradeiro de toda fé - não há milagres.

Tuesday, February 10, 2009

Boxe

As luvas entraram com facilidade, embora fosse a primeira vez que as vestia. Mordeu o protetor com afinco, como se agarrasse uma âncora entre os dentes. Teve problemas para passar pelas cordas e adentrar o ringue, o que gerou risadas histéricas por toda extensão da academia. As cordas eram novidade, pensa, mas o ringue ele certamente conhecia. Seu adversário veio para cima com um sorriso nos lábios de um namorado que não pode esperar pelo primeiro beijo, e encaixou o primeiro golpe com precisão tal qual lingua sedenta. O suor explodiu com o impacto, garoando por todo o chão. Nem teve tempo de pensar, levou outro, acima do olho. Pior do que o impacto eram as unhas cravadas nas costas, arranhando, tirando sangue, e sua reação instintiva foi cravar seu pênis no meio das pernas dela com toda força, que por sua vez arqueou as costas como num espasmo. Repetiu o movimento duas, três vezes, mas as unhas, a carne, o sangue - que começou a entrar em seu olho, quente, ardido, o cheiro de aço, de suor e de sexo a cada golpe novo que lhe entra na guarda. O adversário lhe atinge o estômago, obrigando-o a curvar-se. O padre então manda que reze um pai-nosso e cinco ave-marias, porque admitiu ter assistido sua irmã tomando banho. Fingiu escovar os dentes duas, três vezes, enquanto vislumbrava cada movimento da irmã ensaboada pelo espelho. Não contou para o padre as coisas que sentira, apesar da pouca idade compreendia que a visão daqueles seios pequenos lhe colocava em um ringue perigoso, sua mãe poderia punir-lhe, Deus poderia castigar-lhe, e o castigo entra como mais um golpe na altura das costelas e o joelho implora para aproximar-se do solo, numa conversa breve e emotiva com o resto do corpo. Agaixa-se no ringue e os espectadores abrem contagem - não há juiz. Deixa que cheguem em seis enquanto faz um balanço como se lidasse com um carro pifado: até agora, um supercílio rompido, muito sangue no olho direito, uma dor excruciante no lado esquerdo do abdômem. O saldo é positivo, sabe que pode continuar. Levanta e todos gritam sem parar, há tanta gente assistindo, ele tenta então um chute mas seu adversário lhe agarra o pé e arrasta seu corpo mirrado pelo chão do pátio, por entre restos de lanches e poças - chove - por demais pisoteadas, seu olhar procura desesperado por alguma inspetora, uma professora, qualquer pessoa que possa poupá-lo da humilhação, das risadas, da vida de castrado, que para que serve ser garoto se sou arrastado como uma menina por toda a escola para todos verem, e a jornada só interrompe-se quando suas costas tocam as cordas, que impedem que ele caia do ringue. Tenta proteger a cabeça mas alguns golpes lhe atingem a nuca e ele não consegue decidir de que modo é pior, se tomar na frente ou atrás. Na dúvida, abaixa os braços alguns centímetros e ergue o queixo, no anúncio de um golpe decisivo. O uppercut lhe atinge quase no pescoço e não é mais possível inspirar, expirar, inspirar, tudo escurece. Há apenas o calor que é estar envolto em líquido quente, e pode sentir com os pés o ventre que ele consegue chutar de dentro. Há uma urgência para sair, para libertar-se, mas não pode ver nada - está muito escuro. As paredes à sua volta o empurram para fora, em direção às mãos frias, brancas e lisas, e lhe seguram nos braços mas não pode ver nada - está muito claro. Sente o cordão viscoso enroscado em sua perna, mas não por muito tempo porque lhe cortam fora sob os barulhos de uma tesoura. As luvas brancas lhe batem na face, querem que ele chore, querem saber que ele vive, que ele é de fato nascido, arrancam-lhe de sua mãe e o colocam no mundo. Há o barulho de seu choro, mas no fundo a contagem continua, mais pela piada, porque é claro que não conseguirá levantar do ringue, estatelado no chão. Está em nove. Está em dez. Confuso, não sabe se vive e não sabe se morre. Entre ruídos, alguém lhe pergunta se ele está bem, se ele está vivo. Mas não faz idéia de como responder, e pensa, é tudo tão parecido!

Friday, February 06, 2009

Arte

Me tiram o oxigênio,
me cortam os pulsos.
Então engasgo
e o som vira
música,
o sangue escorrendo
desenha
versos.

Saturday, January 10, 2009

Paganismo

Nós sacrificamos
nossas flores
- degolamos! -
e as colocamos sobre os
corpos
dos nossos
mortos.

Monday, July 14, 2008

As palavras são menores que tudo

As palavras são menores que tudo.

escreva "cadeira"
e uma cadeira será maior.
escreva "cadeira" em uma parede gigante
mas espere que o gigante sente-se na parede

fale de amor
e não será maior do que sente
fale de amor, de mentira
e não parecerá maior
do que a vontade de que fosse verdade

tudo o que é pequeno demais
as palavras não conseguem
descrever.
A brisa. O arrepio.

tudo o que é grande demais.
cabe em um verso.

tudo o que vira um livro,
é desnecessário.
tudo o que vira poesia,
é só um desabafo

Thursday, July 03, 2008

Descartes revisitado

Penso
- em você -,
logo
existo.

Wednesday, June 18, 2008

Santa Ceia

Tomai e comei o pão,
ele é meu corpo;
tomai e bebei o vinho,
ele é meu sangue.
Tomai também a conta,
e
- por gentileza -
pagai ali no
balcão
antes de
sair.

Tuesday, June 17, 2008

Via crucis

Uma gota de chuva em cada palma
crucificou-me
em pleno asfalto
da Avenida Paulista.
Se somos
à imagem e semelhança de
algo,
então
que criador
sofrido, solitário,
impotente,
covarde,
crucificado!

Por que, se sabia
que éramos fracos,
se sabia
que éramos sós?

Pai, perdôo-te,
pois
- assim como nós -
não sabes
o que fazes.

Friday, May 23, 2008

o meu novo universo

Como animal capturado,
que anda com suas próprias pernas
até sua
armadilha,
caminhei com as minhas, meio
sem querer, até um universo
completamente diferente.
Desconhecido.

Um universo onde as pessoas usam
sapatilhas,
adoram o número 3
e todas tem
enormes pescoços
e dormem de pé

Um lugar bem longe da minha casa,
que eu só tinha ouvido falar,
que eu já tinha falado sobre,
tinha visto, mas não conhecia
nem um pouco.

Como o super-homem
me senti sozinho.
Numa zona desconhecida,
com pessoas estranhas,
Um alienígena em um novo planeta.

Como o super-homem,
tentei me adaptar.
Como o super-homem,
acabei diferente,
mudado, influenciado,
mas nunca adaptado.
Um alienígena nunca está em casa
se você ainda o está chamando
de alienígena.

Mas temos algumas diferenças:
não sou super,
não sou especial,
não sou herói
e não há nada o que salvar
aqui

Outra diferença é que meu mundo
anterior
não acabou.
E posso voltar pra ele quando quiser.
E sei que esse mundo que descobri
quando fui capturado naquela armadilha,
não precisa de mim.

Como o super-homem
que se arrisca por um planeta
que não é o seu,
eu entrego minha vida, meu tempo,
eu sofro e me apego
ao universo que eu adotei.
o das girafas,
o das bailarinas,
o das danças que não sei dançar,
o da saudade,

e daquele vestido vermelho,
a primeira isca.

Tuesday, April 29, 2008

Deus ex machina

Estão rezando nas igrejas
tentando
como loucos
fazer parte
de um círculo social
divino,
aberto a poucos.

Em meio aos
pecados
tentam deixar
- com preces,
sem teclado -
algo que escape
do mundo
dos pixels,
alguma espécie de
recado

porque ouviram dizer
que,
atualmente,
Deus
somente
add

aquele que mandou
scrap
.

Monday, February 25, 2008

a tia do balé 2

A tia do balé me fez gostar de dança.
A tia do balé me fez gostar de ir no circo.
A tia do balé me fez gostar de passear pela Zona Leste.
A tia do balé me fez gostar de Rihanna.
A tia do balé me fez gostar do Chico Buarque.
A tia do balé me fez gostar de mamíferos pescoçudos.
A tia do balé me fez gostar da China, no outro dia!

A tia do balé só não me fez gostar de comer os legumes. Isso ainda não!

Monday, January 28, 2008

Helena de Tróia

Nasceu marcada,
um emblema que impedirá
qualquer homem de pensar.
Nasceu fadada
a tirar
poetas de seus poemas
músicos de suas melodias
transeuntes de seus devaneios
- do medo da morte,
de um dia de sol.

Para sempre,
do berço ao leito,
do parto ao ventre,
um atestado de um
retrocesso evolutivo
convocando todos os homens

- engravatados, utilizando
vasos sanitários,
sem colocar jamais
os cotovelos na mesa -

a serem simplesmente
animais.

O universo
subitamente concentrado
- big bang ao contrário -
o todo nela
e em nada mais.
Das opções possíveis,
todas duas:
tê-la, exaurí-la,
penetrá-la;
ou então todo o resto,
aquilo que se faz
para distrair,
abstrair,
manter a sanidade
ali dentro das calças.

Não interessa se tola,
oca, suja:
por ela, o mundo
se lavaria em torneiras
de sangue encanado.
Todas as lápides têm
seu nome
subentendido,
e os bebês são
batizados em sua homenagem
- um nome para lembrá-los
para sempre
de que foram gerados
no ventre errado.

Eternamente nascida
fadada à carne.
Se nobre ou vã,
se sábia ou tola,
igualmente condenada
a dormir sobre flores
e a esquentar lençóis frios.
Seu fardo: o mero respiro,
nunca nada além de
dor ou êxtase
- sempre alheios -
por simplesmente
existir,
por estar,
mas por nada além.

Incapaz de tirar o corpo,
guardá-lo ao armário.
Incapaz de falar
porque as palavras saem da boca
- e viram sexo.

Impossibilitada de omitir-se:
exposta;
incapaz de exprimir-se:
o corpo
omite
o resto.

Para sempre
uma vitrine,
um festival aos olhos
instantâneo e explosivo.
Uma mulher
em forma de pólvora,
uma razão
estética
para o mundo voar pelos ares.

Tuesday, January 01, 2008

Inspiração

Eu a vejo quando não quero. Vejo toda noite.
ela aparece quando eu não a desejo
eu procuro ela
apenas pra ter certeza
de que ela não está lá.
E quando a encontro não tiro os olhos,
assustado.

Sua barriga branca, seu corpo se mexendo
sua pequena língua.
Ela visita meu quarto, minha casa,
meu mundo.
Quando ela for embora, vou ver outra,
apenas parecida. Mas pra mim será sempre
ela
a primeira.

Mulheres ou lagartixas,
tanta faz,
o importante é a inspiração trazida.
Isso não tem preço.

Tuesday, November 20, 2007

segue relatório feito pela equipe QWERTY do planeta UIOPÀSD sobre construções encontradas no planeta Terra.

Em escavações feitas no Planeta Terra na região conhecida como "São Paulo" foram encontradas poucas construções ainda inteiras, porém foram achados alguns palacetes que surpreendentemente estão bem conservados, por sorte estes modernos palacetes possuíam algo chamado "sistema de vigilância" que guardou alguns registros em vídeo que nos permitem estudar como viviam os seres humanos, criadores desses palacetes. Com a ajuda de nossos experientes lingüistas conseguimos inclusive traduzir alguns escritos da língua Humana e chegamos à conclusão que os locais chamavam os palacetes de Shopping Centers.

Todos sabemos que os homens foram extintos há milhares de anos por culpa de mudanças climáticas no planeta, nossa pesquisa indica que os humanos estavam cientes dessa mudança já que possuíam um complexo sistema de ar condicionado que garantia ar gelado para todos os moradores. Acredita-se que os shoppings foram o principal abrigo humano nos seus últimos anos de existência como fuga do clima destruidor que deveria existir fora deles, este foi feito sem janelas, sendo impossível saber qual é a hora do dia ou da noite.

Algo que nos intriga é a quantidade de roupas disponíveis nesses shopping centers, existem milhares e a maioria fica exposta em lugares chamados "vitrines". A maioria das roupas, sejam as indicadas para os dias de calor infernal ou para às do inverno rigoroso, são femininas, o que indica que provavelmente eram as fêmeas que saiam dos palacetes para trazer os suprimentos necessários para a vida. A quantidade muito maior de fósseis de fêmeas encontradas lá somadas à quantidade superior de fêmeas captadas pelas câmeras de vigilância prova que as fêmeas humanas deveriam ser mais fortes fisicamente e por isso sobreviveram às mudanças climáticas.

O lugar que parecia ser o mais importante do palacete é o que os humanos chamavam de "Praça de Alimentação", lá era distribuída a ração que os mantinham vivos. As rações poderiam ser pegas por qualquer um em inúmeras casas de carne bovina chamadas "lanchonetes" que servem variações do chamado "Hambúrguer". Não foi possível indicar qual é a real diferença entre essas carnes, pelo o que é possível apurar todos as casas de ração parecem iguais, com a diferença apenas em sua apresentação ao público humano, o que indica que eles podem ter morrido em uma fase da evolução chamada "era dos fetiches" aonde o importante é o nome do que se tem e não exatamente o que se tem, é uma preocupação com o status ao invés da qualidade. Essa era nos é conhecida no planeta UIOPÀSD e ocorreu há mais ou menos duas eras glaciais atrás. O que nossos cientistas ainda não conseguiram entender e explicar é como essa era aconteceu em meio a um desastre ecológico que acabou com a vida no planeta, a nossa era dos fetiches acabou justamente no inicial da Era Glacial número 12, já que em vista de uma tragédia natural o nosso conceito de vida mudou completamente.

A Praça de Alimentação consistia em um conjunto de mesas no centro das casas de ração. As mesas eram bem próximas, o que indica que todos deveriam comer juntos, em harmonia. Apesar dos fetiches, que nossos sociólogos dizem causar inveja e batalhas de ego, os humanos pareciam ser uma raça bem unida já que todos se alimentavam no mesmo lugar um ao lado do outro, possivelmente se conhecendo e trocando conhecimentos. Também não foram encontrados indícios de violência ou assassinatos dentro dos palacetes, o que indica que os humanos devem ter sido uma raça bem pacífica e que sua morte deva estar relacionada apenas ao azar de se encontrar em uma era climática instável.

Próximo à Praça de Alimentação invariavelmente se encontram os chamados "Cinemas". São grandes salas escuras aonde os humanos se juntavam um ao lado dos outros, como nas praças de alimentação, para assistir o que eles chamavam de "filmes". Tivemos acesso a alguns desses filmes e percebemos que em geral eles são filmes educativos que usam de uma narrativa de estrutura simples para ensinar os humanos a se relacionar entre si e reproduzir. Todo o filme assistido constituía, direto ou indiretamente, em uma história de relacionamento entre homem e mulher, claramente para incentivar a reprodução em uma época difícil da vida humana na Terra.
Os resultados não parecem ter sido positivos, nada nos vídeos ou nas escavações indicam que os humanos se reproduziam nesses palacetes, o mais próximo disso foi encontrado justamente nas salas escuras de cinema onde geralmente os machos ficavam sentados ao lado das fêmeas e por vezes chegavam a ter o que chamamos de contato sexual de nível 3, insuficiente para reprodução mas o suficiente para forçar os corpos a ter vontade de se reproduzir, talvez em local mais reservado caso os humanos fossem dotados de pudor como nossos descendentes do século 16 antes de YYZ.

Outro fator que indica que as fêmeas eram as que saiam no mundo hostil eram seus calçados. Espaços imensos nos palacetes eram dedicados a mostrar variações dos calçados femininos que variavam de botas de cano alto com uma plataforma altíssima sob a sola que provavelmente eram usadas para sair tanto em alagamentos quanto em neve. Também existiam inúmeros calçados que eram acentuados na parte traseira, fazendo a fêmea ficar mais alta ao mesmo tempo em que seu andar ficava barulhento com o bater do salto que a levantava no chão; é possível que esse salto barulhento e alto tenha sido usado pelas fêmeas para intimidar outros animais quando elas saiam dos palacetes em busca dos hambúrgueres, a principal fonte de alimento da raça.

Algo que nossos cientistas ainda não responderam também tem a ver com o próprio hambúrguer. De acordo com estimativas que fazemos o valor nutricional do alimento era baixíssimo o que fazia com que a vida humana fosse muito improvável, então não temos resposta para como eles conseguiram viver tanto tempo. Também é incrível o fato de que a tal carne seja de alto valor calórico, o que aumenta a massa corporal humana, deixando-os grandes e gordos, o que não entra de acordo com as roupas expostas nos shoppings, todas pequenas e que exigem corpos esguios, rápidos e de cintura extremamente fina.

A segunda grande raça do planeta também estava presente no shopping center. Ela é bem parecida com a que chamamos aqui de "Machinat", mas lá eram conhecidos como "carros". Os carros com seu poder físico dominaram grande parte das áreas externas ao shopping, em muitas áreas vistas pelos nossos cientistas é claramente óbvio que só os carros eram capazes de passar e que qualquer humano lá seria devorado por qualquer um deles. Nos shoppings eles ficavam em subsolos, eram algumas raças submissas, sem muito valor intelectual que obedeciam a ordens humanas em troca de combustível. Acredita-se que poucos carros tenham evoluído a ponto de viver independente dos homens, como acontece hoje em inúmeros planetas inclusive no nosso.

Entre outras coisas que intrigam nossos cientistas está em porque animais tão ágeis como os humanos, vindos dos também rápidos macacos, precisavam de escadas que se movimentam sozinhas para subir de uma região a outra do palacete já que é sabido que essas máquinas eram extremamente mais lentas que as pernas humanas. No próximo relatório discutiremos uma área adjacente ao Shopping Center chamada "Supermercado" aonde, entre outras curiosidades, são oferecidas bebidas que simulam sabor de frutas mesmo estas frutas, as verdadeiras, existirem a apenas alguns metros de distância dessas bebidas.

Fim do relatório
23/19/5.314 D.YYZ

Monday, November 19, 2007

Falapensático

Haverá um dia
em que digitar
será o mais antiquado
dos trabalhos braçais.
Haverá o triste
e melancólico
silêncio das teclas
ressoando apenas
nas mentes do passado.
Bastará pensar
e tudo se converterá em
letras,
palavras,
páginas,
poemas.

Ah, nesse futuro
escrever será tão fácil!
Se fosse assim
escreveria mais
versos,
contos,
roteiros, romances,
uma infinidade
de cartas de amor,
e-mails, conselhos,
despedidas,
confissões

- escreveria tão mais
e, no entanto,
continuaria sem nada a dizer.

Imagine quanto tempo poupará
a próxima geração
sem o físico impropério das teclas,
sem
a música robótica
de uma conexão discada,
sem cair
- num silêncio digital -
no meio de uma conversa
apaixonada,
sem problemas de
velocidade,
sem se preocupar se
a página expirou.
Sem ter que entrar
apenas de madrugada,
ter problemas de tráfego
ou assustar-se com
os apitos
das operações ilegais
do computador.

Para tudo,
bastará pensar!
Terão, assim,
tanta facilidade,
tantas regalias

e muito mais tempo
para gastar
com outras coisas

que, vejam só,
serão
ainda mais inúteis.

Friday, November 09, 2007

No Cepeusp

-A universidade vai estar sempre aqui sabe? Você já viu ela se mexer? Ela está sempre aqui, você pode ir embora que ela vai estar aqui. O que passa rápido é a juventude, você nem percebe e já é velho. A juventude passa voando, meu filho. A universidade vai te esperar pra sempre, até os 70 anos você pode entrar na universidade e fazer o que você quiser, depois do 70 que fica mais complicado, começam a te empurrar pra uns negócios de terceira idade e a coisa fica triste, não tem nada mais deprimente que esse negócio de terceira idade, deviam acabar com isso. Mas então, a juventude que é rápida, você tem que aproveitar ao máximo, depois a universidade. E você ainda me diz que tem aula a uma hora e por isso não pode jogar um futebolzinho, um basquetão? Ah, isso não entra na minha cabeça! Isso não faz sentido! Você é jovem, aproveita. E isso é pra você também, viu?

Thursday, October 18, 2007

Treinando um gorila

Volume 1 - Ônibus

Isso aqui, ó
é um ônibus.
Você dá dinheiro
praquele cara ali
e então esse monte
de metal sobre rodas
te leva pra onde você
quiser ir.
Mas não é qualquer lugar
não, o trajeto
é pré-definido
e você só desce onde quer
se for coincidência.
O ônibus manda,
você só avisa que quer sair
puxando essa cordinha,
isso, essa,
mas não agora!
Você fica sentado
e espera,
mas às vezes está
lotado
e aí você só se segura
- e espera também.
Se alguém levantar
você pode sentar no lugar
vago,
a não ser que tenham
grávidas, deficientes
ou pessoas com crianças
de colo,
elas tem preferência.
Não, gorilas
não têm preferência.
Como eu dizia,
se não tiver ninguém
nessas condições
você pode se sentar
- e esperar.
Se estiver triste
enquanto espera,
pode olhar pela janela
e ver que nada dura muito tempo
a não ser no farol
- que dura um pouco.
Pode também olhar
as outras pessoas do ônibus
nos olhos
e ver como elas dóem
enquanto sonham
no silêncio da viagem.
Muita gente que está no ônibus
está
indo ou voltando
do trabalho,
então há muito suor
e muita dor
nos olhos de quem sofre
pelo dinheiro
- que paga comida
e paga o ônibus.
Você viaja
vendo os outros viajarem junto,
olhando cada um
profundamente,
mas sem conhecer nada
a não ser a dor
- que a gente sempre sabe
que está lá.
É tão íntimo,
é tão mútuo,
mas a viagem acaba
e todo mundo desce
sem falar
sem avanço
no mesmo lugar.
Tudo isso aqui,
nessa coisa que serve
pra sair do lugar.
Sim, sim,
você está certo,
é como um cipó grande
- mas mais lotado
e mais triste.